QAQC em campo: o que não é negociável

Na pesquisa mineral inicial, trabalhamos em um ambiente de alta incerteza. Os teores são baixos, as anomalias são sutis e o risco de perder informação relevante é enorme.
Nesse cenário, QAQC (Garantia e Controle de Qualidade) não é uma formalidade: é um requisito essencial. Qualquer descuido na coleta ou na preparação de amostras pode gerar erros que mascaram sinais frágeis ou, pior, criam falsas anomalias. É por isso que, justamente no início, o rigor deve ser máximo.

O primeiro pilar do QAQC em campo é a rastreabilidade.
Cada amostra deve ser única e inconfundível, identificada por código estruturado, com coordenada geográfica precisa, profundidade (quando aplicável), data, nome do coletor e registros fotográficos.
Essa rastreabilidade garante que, meses depois, ao reavaliar os dados, seja possível voltar ao ponto exato e compreender o contexto da coleta. Sem isso, o dado perde credibilidade.

Outro ponto crítico é a inserção de amostras de controle no próprio processo de campo.
Entre as amostras reais, é indispensável incluir brancos de campo, que verificam contaminações introduzidas por ferramentas, recipientes ou pelo próprio ambiente. Também devem ser coletadas duplicatas de campo, obtidas no mesmo ponto, mas em recipientes distintos, para medir a reprodutibilidade do processo. Esses controles, embora muitas vezes negligenciados, são a única forma de quantificar a qualidade do dado.

A massa da amostra é igualmente decisiva. Em materiais homogêneos, pequenas quantidades podem ser representativas; já em materiais heterogêneos, como solos com efeito pepita, a variabilidade é alta e exige massas maiores. O planejamento deve prever essas diferenças. Coletar menos que a massa mínima exigida pelo laboratório é desperdiçar a amostra e comprometer o resultado.

A limpeza e o preparo dos equipamentos em campo também fazem parte do QAQC. Em sondagens RC, por exemplo, é necessário checar e registrar a recuperação, limpar ciclones e splitters entre amostras e verificar se não há contaminação por material residual. Em trincheiras e canais, ferramentas de coleta devem ser higienizadas regularmente, e é boa prática incluir brancos de equipamento para confirmar que a limpeza está sendo eficaz. Até mesmo no uso de bateias ou mesas densimétricas, a lavagem entre pontos deve ser documentada e controlada.

Um aspecto muitas vezes subestimado é a padronização do procedimento de coleta. É fundamental que todas as amostras de solo no mesmo horizonte pedológico (lembrando que solos podem apresentar diferentes profundidades dependendo o ambiente intempérico); que todos os canais de trincheira tenham largura constante e orientação adequada; que todas as amostras sejam secas, embaladas e etiquetadas de forma padronizada. Sem essa consistência, os dados não são comparáveis, e a interpretação se torna vulnerável a vieses introduzidos pela própria equipe.

O QAQC de campo também envolve o registro minucioso de condições ambientais e logísticas. Um teor anômalo em sedimento pode estar relacionado à vazão da drenagem no momento da coleta; um resultado inesperado em solo pode refletir contaminação antrópica (uso agrícola, queimadas, estradas próximas). Esses fatores devem ser anotados e, quando possível, fotografados, para que análises posteriores considerem o contexto.

É igualmente importante manter a disciplina de quarteamento e homogeneização de amostras já em campo, quando aplicável. Isso reduz erros sistemáticos e permite comparações consistentes. Da mesma forma, o acondicionamento deve seguir padrões que preservem a amostra: sacos de papel para evitar umidade excessiva, sacos plásticos externos para selagem, caixas resistentes para transporte e cadeia de custódia registrada até o laboratório.

No início da pesquisa mineral, QAQC não é um custo extra, mas um investimento. Ele assegura que os dados obtidos refletem a realidade, e não artefatos de coleta ou preparação. Sem ele, a pesquisa pode ser conduzida sobre premissas falsas, levando ao desperdício de tempo, recursos e credibilidade técnica.

Em resumo, QAQC em campo significa disciplina, padronização e rastreabilidade. É inserir brancos, duplicatas e padrões desde o primeiro dia; é registrar cada detalhe; é tratar cada amostra como única e irrepetível. Mais do que um protocolo, é uma cultura: a cultura de que decisões só podem ser tomadas sobre dados cuja qualidade é conhecida.
E conhecer a qualidade dos dados só é possível quando o QAQC é aplicado de forma sistemática, criteriosa e inegociável.