Erros comuns na aplicação dos MRCs

A aplicação de Materiais de Referência Certificados (MRCs) nas rotinas de QAQC é uma prática fundamental para assegurar a qualidade dos dados.
No entanto, diversos erros ocorrem por falhas de interpretação do certificado do MRC ou desconhecimento dos fundamentos estatísticos e analíticos relacionados à sua correta utilização.

Um dos erros mais frequentes é o desconhecimento dos parâmetros apresentados no certificado. Muitos usuários não compreendem que um MRC pode ter valores certificados diferentes para óxidos e elementos (ex: Fe2O3 vs. Fe).
Utilizar um MRC certificado apenas para óxido em uma análise que reporta elemento pode levar a erros sistemáticos de interpretação de viés. Portanto, é essencial verificar para qual forma química o valor foi certificado e se esse valor corresponde ao método analítico empregado.

Outro erro recorrente é o uso incorreto do desvio padrão. O desvio padrão reportado no certificado representa a variabilidade observada nos ensaios interlaboratoriais e não deve ser confundido com a variabilidade do método de rotina da empresa.

Muitos usuários também não sabem qual desvio utilizar em gráficos de controle: usam o desvio padrão do certificado para controle de precisão, quando o correto seria utilizer também o desvio do próprio laboratório.

Relacionado a isso está a má interpretação do intervalo de confiança. O intervalo de confiança apresentado no certificado refere-se à incerteza da média do valor atribuído, ou seja, serve para avaliar a exatidão do sistema, e não para controle de dispersão. É comum ver laboratórios utilizando esse intervalo como se fosse um critério de desvio padrão, o que leva a decisões erradas sobre a performance do laboratório.

Outro ponto crítico é a escolha inadequada do MRC em relação ao método analítico. Por exemplo, usar um MRC certificado por ICP-OES para validar análises feitas por FRX (Fluorescência de Raios-X) pode gerar resultados inconsistentes, especialmente em concentrações baixas ou em elementos sensíveis a interferências. O método de certificação deve ser compatível com o método de rotina utilizado no projeto.

Ainda dentro da escolha do material, muitas vezes o usuário não verifica se o MRC possui certificação para todos os elementos de interesse.
Alguns materiais trazem valores informativos (não certificados) para determinados elementos, o que impede o uso desses dados para avaliação de viés. A ausência de valor certificado significa que não há rastreabilidade metrológica para aquele parâmetro.

Outro erro técnico importante está na não consideração da amplitude do intervalo de confiança. Um valor médio com grande incerteza não deve ser utilizado para controle de viés, pois não fornece informação confiável sobre a exatidão. Ainda assim, é comum ver laboratórios utilizando MRCs com incertezas elevadas como base para rejeitar ou aprovar métodos, gerando interpretações equivocadas.

Por fim, muitos usuários não compreendem a função estatística dos MRCs. Alguns acreditam que os MRCs servem apenas para validar métodos, quando na verdade são ferramentas contínuas de controle de qualidade, sendo essenciais para auditorias, modelos geoestatísticos e decisões operacionais. A falta de entendimento do conceito de rastreabilidade e da incerteza associada compromete toda a cadeia de confiabilidade dos dados.

Portanto, o uso correto de MRCs exige conhecimento técnico e estatístico sólido. É essencial que os usuários sejam treinados para ler e interpretar certificados, selecionar materiais adequados e utilizar corretamente os parâmetros estatísticos ali apresentados. A má aplicação dos MRCs não apenas compromete os dados, como pode levar a erros operacionais, perdas financeiras e decisões geológicas equivocadas.