Combinando métodos: Fire Assay, BLEG e Cyanide Leach em depósitos com múltiplas ocorrências de ouro

A geologia de um depósito aurífero raramente apresenta o ouro em uma única forma de ocorrência. É comum encontrarmos ouro livre em fraturas e veios de quartzo, ouro fino disseminado em sulfetos, e ainda ouro encapsulado em minerais refratários como arsenopirita ou pirrotita. Em depósitos carbonosos, pode haver ainda o fenômeno do preg-robbing, em que o ouro dissolvido em soluções cianetadas é reabsorvido pelo carbono natural da rocha.

Frente a essa diversidade de ocorrências, nenhum método analítico isolado é capaz de responder todas as perguntas. O desafio do profissional de exploração e geometalurgia é combinar diferentes técnicas, cada uma com seus alcances e limitações, para construir uma imagem fiel do depósito. É nesse contexto que a integração de Fire Assay (FA), BLEG e Cyanide Leach se torna estratégica.

Fire Assay: a base para o total

O Fire Assay permanece como linha de base. Ele fornece o teor total de ouro presente na amostra, independente da forma de ocorrência. Se o fluxo de fusão for bem desenhado e compatível com a matriz, o FA recupera tanto o ouro livre quanto o encapsulado. Isso é essencial para a estimativa de recursos minerais, já que o modelo de blocos precisa do total disponível para calcular conteúdo metálico.

Porém, o Fire Assay não diferencia as formas de ocorrência nem a recuperabilidade metalúrgica. Ele diz “quanto ouro há”, mas não “como esse ouro se comporta”.

BLEG: mapeando o ouro fino e disperso

Em depósitos amplos e heterogêneos, especialmente em fases iniciais de exploração, o BLEG (Bulk Leach Extractable Gold) é utilizado para mapear ouro solúvel em condições brandas. Como o BLEG envolve a lixiviação de grandes massas (até 2 kg) em soluções cianetadas fracas, ele é altamente representativo e sensível para detectar ouro muito fino e disperso.

Assim, o BLEG ajuda a identificar áreas de enriquecimento aurífero em escala regional, mesmo quando os teores são baixos e o ouro ocorre em partículas submicroscópicas.

Cyanide Leach: medindo o ouro recuperável

O Cyanide Leach (bottle roll ou column leach) vai além: ele simula, em escala laboratorial, o processo de lixiviação usado industrialmente em plantas de beneficiamento. Enquanto o Fire Assay mostra o ouro total, o Cyanide Leach mostra a fração recuperável por cianetação.

Se uma amostra mostra, por FA, 2 g/t de Au, mas no bottle roll apenas 1,2 g/t é solubilizado, significa que cerca de 40% do ouro está em fases não lixiviáveis — possivelmente encapsulado em sulfetos ou aprisionado em silicatos refratários. Esse dado é fundamental para avaliar recuperações metalúrgicas reais.

Além disso, testes de preg-robbing podem ser conduzidos para entender se o carbono natural da rocha está “roubando” parte do ouro dissolvido, reduzindo ainda mais a eficiência da cianetação.

Integração prática: quando usar juntos

Em projetos auríferos complexos, a sequência pode ser desenhada assim:

Fire Assay em todas as amostras → obter o teor total de Au.
BLEG em campanhas exploratórias regionais → mapear o ouro fino solúvel e delimitar halos anômalos.
Cyanide Leach em amostras representativas → estimar a fração realmente recuperável por cianetação e identificar problemas de refratariedade ou preg-robbing.

O cruzamento desses dados permite diferenciar:

Quanto ouro existe no depósito (FA).
Qual a distribuição espacial do ouro fino e solúvel (BLEG).
Qual parte desse ouro pode ser recuperada economicamente (Cyanide Leach).
Impacto na estimativa de recursos

Ao integrar esses métodos, é possível não apenas calcular o conteúdo metálico total, mas também prever fatores de recuperação metalúrgica que impactarão diretamente o fluxo de caixa do projeto.

Por exemplo:

– Um depósito com 2 g/t Au no FA pode ter apenas 1,2 g/t Au recuperável em cyanide leach.
– Essa diferença, se não identificada, gera uma discrepância entre o recurso declarado e o recurso efetivamente recuperável.
– Incorporar essa informação na estimativa significa entregar um modelo de blocos mais realista, com fatores de recuperação alinhados à mineralogia e ao processo.

Ouro não é um elemento “único” no laboratório — ele se manifesta em diferentes fases minerais e com diferentes comportamentos químicos. É por isso que Fire Assay, BLEG e Cyanide Leach não competem entre si; eles se complementam.

O FA fornece a base do total, o BLEG mostra a expressão regional do ouro solúvel e o Cyanide Leach define a fração recuperável. Juntos, eles transformam o dado analítico em informação estratégica, conectando a geologia à metalurgia e permitindo que a estimativa de recursos minerais seja, de fato, uma previsão econômica confiável.