Estrutura da “Sampling Techniques and Data” e sua relevância em auditorias

A seção “Sampling Techniques and Data” é, de longe, a parte mais crítica e mais revisada de qualquer relatório técnico internacional. Ela aparece como a primeira seção técnica detalhada no JORC Table 1, no NI 43-101 e no template CRIRSCO porque é aqui que nascem todos os dados primários que sustentam o modelo geológico, a variografia, a estimativa e, consequentemente, a classificação do recurso. Qualquer falha, omissão ou falta de transparência nesta seção gera ressalvas graves em auditoria e pode impedir o avanço de categoria do recurso, independentemente da qualidade das etapas posteriores.

A estrutura obrigatória dessa seção é padronizada e cobre os seguintes tópicos principais:

– Métodos de amostragem utilizados (sondagem diamantada, RC, percussão, amostras de superfície, trincheiras, canais, etc.) e justificativa técnica para cada escolha.

– Tipo de equipamento, diâmetro dos furos, massa recuperada e relação com a litologia e granulometria esperada.

– Recuperação de testemunho ou chips (média, mínima, por litologia e por zona mineralizada), com declaração explícita de intervalos problemáticos.

– Medição de desvio de furo (método utilizado, frequência, precisão e impacto espacial).

– Posicionamento espacial das amostras (GPS, topografia, down-hole survey) e precisão alcançada.

– Procedimentos de amostragem e sub-amostragem (tamanho de amostra, redução, preparação).

– Logging geológico e estrutural (método, consistência, responsáveis).

– Cadeia de custódia completa (desde o furo até o laboratório, incluindo identificação, transporte, armazenamento e segurança).

– Registros e rastreabilidade (fotos de testemunho, testeira, sacos de amostra, etiquetas, profundidades, relatórios de campo, banco de dados digital com audit trail).

– Protocolos iniciais de QAQC (blanks, duplicates, standards inseridos no campo).

Os auditores (sejam para NI 43-101, JORC, PERC ou revisão ANM/SBRRM) dedicam a maior parte do tempo a esta seção exatamente porque ela é a fonte primária de todos os dados. Eles verificam:

– Consistência entre o que foi reportado e o que foi executado em campo.

– Qualidade e completude dos registros (fotos, relatórios de sondagem, planilhas de recuperação, logs de desvio).

– Rastreabilidade total (é possível voltar de qualquer amostra no laboratório até o furo exato, data, turno e equipe?).

– Transparência sobre limitações e impactos materiais (não existe “regra de ouro” de recuperação ou diâmetro; o que importa é declarar o impacto real na confiança).

Quando os registros e a rastreabilidade são completos e profissionais, o QP/CP (ou o profissional com CREA no Brasil) consegue defender com solidez a classificação do recurso e reduzir drasticamente o risco de ressalvas. Serviços de sondagem que entregam documentação rigorosa, fotos de alta qualidade, medição de desvio sistemática, recuperação registrada por intervalo e cadeia de custódia inviolável geram um impacto gigantesco na credibilidade do relatório inteiro – mesmo sabendo que a auditoria olha também densidade, topografia, geometalurgia e mapeamento. Dados primários frágeis ou mal documentados não se corrigem nas etapas posteriores.

Projeto com excelente recuperação média (92%), mas com falhas de rastreabilidade (fotos faltando em 30% dos intervalos e ausência de medição de desvio em zona de falha). O auditor pode exigir reavaliação da continuidade espacial e classificar o recurso em Inferido, apesar de bons resultados analíticos.

Outra situação comum: registros de sondagem completos, cadeia de custódia digital com código de barras e fotos georreferenciadas. Mesmo com recuperação ocasionalmente mais baixa em zonas friáveis, o QP consegue demonstrar impacto limitado e manter classificação Indicado com transparência total.

A seção “Sampling Techniques and Data” não é apenas um checklist – é o alicerce técnico e regulatório de todo o relatório. Registros completos e rastreabilidade impecável são o que permitem ao Profissional Qualificado construir uma defesa robusta perante auditores e investidores. É aqui que começa (ou termina) a credibilidade de qualquer empreendimento mineral.