Crítica pessoal ao uso de grade shells na modelagem

Ao longo da minha experiência, uma das práticas de modelagem que mais me preocupa é o uso indiscriminado das chamadas grade shells.
Essa metodologia, que consiste em gerar superfícies tridimensionais baseadas apenas na continuidade aparente de um atributo (geralmente o teor), tem sido aplicada em muitos projetos como se fosse uma alternativa prática e eficiente. Mas, na minha visão, representa um dos maiores riscos que podemos embutir em um modelo geológico.

O primeiro problema é conceitual. Quando se modela apenas com shells, perde-se a gênese e a lógica do depósito. O software passa a unir regiões de mesmo teor como se fossem um domínio único, ignorando que esses volumes podem representar estilos de mineralização completamente distintos. Isso é especialmente claro em depósitos de ouro, onde o elemento pode estar disseminado na rocha encaixante, preenchendo fraturas em vênulas ou associado a sulfetos como a pirita. Ao juntar tudo em uma única shell, cria-se um volume que não existe geologicamente, misturando contextos diferentes em uma interpretação artificial.

Em depósitos de ferro, o risco é igualmente grave. Sabemos que os contatos entre regiões de diferentes teores são difusos, graduais, com zonas de transição amplas. A criação de shells rígidas para separar “altos” e “baixos” teores ignora a gradação natural do minério e produz modelos que, embora visualmente convincentes, são frágeis e desconectados da realidade geológica.

Além desses pontos, há riscos ainda mais críticos quando pensamos na geometalurgia. Quando se cria uma shell, não se leva em conta o comportamento do mineral minério que carrega o elemento de interesse, nem o das gangas associadas. Isso significa que, ao definir uma região de alto teor, posso estar agrupando litotipos diferentes, cada um com uma resposta distinta no beneficiamento. Em termos práticos, isso compromete previsões de recuperação metalúrgica, gera expectativas irreais de desempenho e pode afetar diretamente o resultado econômico da mina.

Outro aspecto fundamental é a densidade. Não existe “densidade da shell”; existe densidade de cada litologia. Quando diferentes rochas são agrupadas em uma mesma shell de alto teor, as variações de densidade são ignoradas, comprometendo estimativas de tonelagem e cálculos econômicos.

Da mesma forma, não existe um comportamento geomecânico único para uma shell. Uma região de alto teor pode estar hospedada em rochas com resistências mecânicas muito distintas. Ao modelar esses volumes como se fossem um único corpo, corre-se o risco de planejar lavra e taludes com premissas falsas, subestimando riscos de instabilidade e superestimando condições de segurança.

Por isso, falo com clareza: na minha prática profissional, eu não recomendo o uso de grade shells como ferramenta de modelagem. Para mim, shells representam um atalho perigoso, que transmite uma falsa sensação de precisão. O que se obtém é um volume matemático, mas não um modelo geológico.

A modelagem geológica deve sempre nascer da interpretação fundamentada. É a gênese, a estrutura, a variabilidade e o conhecimento do geólogo que definem os domínios. Só depois dessa etapa os dados podem ser traduzidos em representações matemáticas. Quando se pula essa construção conceitual e se adota uma shell como substituto do raciocínio geológico, cria-se um risco técnico e econômico inaceitável.

Ao longo da minha carreira, já vi projetos sofrerem consequências graves por confiar em shells: desde superestimação de recursos até surpresas na usina, quando volumes supostamente homogêneos se revelaram extremamente heterogêneos no processamento. Isso reforça a minha convicção: modelar shell não é modelar geologia.

Para alguns, pode parecer uma solução rápida. Mas, na minha visão, é um erro conceitual que embute riscos enormes. O verdadeiro modelo nasce da interpretação geológica, respeita a variabilidade, considera litotipos, densidades e comportamentos geomecânicos, e só depois se transforma em um sólido digital. Qualquer coisa diferente disso é apenas um contorno matemático sem fundamento científico.


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