
O ponto de partida para qualquer declaração de recurso mineral é a existência de uma razoável perspectiva de extração econômica. Este é o critério basilar presente em todos os códigos internacionais alinhados ao CRIRSCO (JORC, CIM, SAMREC, PERC, entre outros). Sem essa premissa, não importa a quantidade de dados disponíveis nem a qualidade do modelo geológico: não há recurso a declarar. A partir desse fundamento, a qualidade e a representatividade do modelo geológico é que sustentam o nível de confiança necessário para enquadrar um recurso como inferido, indicado ou medido.
Todos os códigos internacionais se estruturam em três pilares fundamentais: transparência, materialidade e competência.
Transparência significa relatar, de forma clara, quais dados foram usados, como foram tratados e quais incertezas permanecem.
Materialidade exige apresentar todas as informações relevantes para que terceiros compreendam a base do modelo e possam tomar decisões fundamentadas.
Competência demanda que as interpretações e escolhas técnicas sejam feitas por um profissional qualificado, capaz de justificar os critérios adotados.
No contexto da modelagem geológica, esses pilares se traduzem em práticas muito objetivas. O primeiro deles é a amarração espacial: não existe modelo geológico confiável sem topografia bem definida, furos corretamente posicionados (collar), surveys de desvio controlados e checados, e coordenadas consistentes. Se não se sabe com precisão onde estão os dados, é impossível afirmar como eles se conectam no espaço.
A seguir, a qualidade da descrição geológica é indispensável. É a partir da litologia, da alteração, da mineralogia, das texturas e, sobretudo, da estrutura, que se constroem os domínios do modelo. Um recurso só pode ser elevado de confiança se as relações de contato entre unidades estiverem bem estabelecidas: quem corta quem, quem dobra quem, como a alteração se sobrepõe, quais feições controlam a mineralização. Sem estrutura, não há modelo robusto.
Os métodos de sondagem e amostragem também desempenham papel crítico. Uma sondagem diamantada de boa recuperação oferece confiabilidade máxima na definição de contatos e texturas. Uma RC pode fornecer bons dados de atributo, mas carrega limitações em termos de contatos e risco de mistura. O pó de perfuratriz é útil no controle de curto prazo, mas inadequado para definir volumes geológicos consistentes. Misturar métodos é aceitável, desde que os riscos sejam claramente relatados e que cada dado seja usado dentro de seu limite interpretativo. Esse é um aspecto essencial de transparência e competência.
A construção de domínios volumétricos é o coração da modelagem. Um domínio só deve existir se tiver continuidade espacial e representatividade. Detalhes centimétricos sem escala de modelagem não podem ser transformados em sólidos — devem ser tratados como internal waste ou agrupados por composição. O inverso, simplificar demais e apagar diferenças geológicas relevantes, também compromete a seletividade e a confiabilidade. Aqui é fundamental definir e respeitar a hierarquia entre domínios: falhas cortam litologias; alteração se sobrepõe à rocha hospedeira; mineralogia subdivide litologias mineralizadas; e domínios geometalúrgicos integram atributos relevantes à usina.
Na definição de domínios, a escolha entre contatos hard e soft é decisiva. Contatos hard são limites abruptos, cartografáveis e sem transição — como o contato entre um itabirito e seu encaixante quartzito, ou entre uma lente de sulfetos maciços e o metabasalto hospedeiro. Já contatos soft são gradacionais, como as transições hematita–magnetita–goethita em formações ferríferas ou as zonas de alteração hidrotermal onde a sericitização passa gradualmente à cloritização. Essa decisão não é apenas cartográfica: ela impacta diretamente a confiabilidade da continuidade geológica e, portanto, a categoria de recurso que pode ser sustentada.
Um ponto que merece destaque é o uso de shells de teor. Os códigos internacionais não proíbem nem prescrevem práticas específicas: eles apenas exigem que qualquer escolha seja apresentada com transparência, materialidade e competência. Assim, shells de teor podem até ser relatados, desde que devidamente justificados. Contudo, do ponto de vista técnico, trata-se de uma prática frágil, porque cria contatos artificiais baseados apenas em atributos contínuos, descolados da interpretação geológica. Isso pode comprometer a representatividade do modelo e, por consequência, a confiabilidade do recurso declarado.
A documentação da incerteza é outro requisito de materialidade. Modelos geológicos de qualidade registram zonas de dúvida, alternativas de superfícies (A/B), áreas pouco amostradas, diferenças entre métodos de sondagem e limitações dos dados. Um relatório transparente é aquele que não apenas mostra o sólido final, mas explica as escolhas e admite as incertezas.
Com todos esses elementos em mente, como se traduz a representatividade do modelo nas categorias de recurso?
Recurso Inferido: é aquele baseado em evidência geológica limitada. O modelo sugere a continuidade, mas a confiança é restrita, seja pela baixa densidade de sondagens, seja pela incompletude estrutural.
Recurso Indicado: exige que a geometria esteja mais bem estabelecida. O modelo deve demonstrar continuidade por meio de dados suficientes, contatos definidos como hard ou soft, domínios coerentes e hierarquias respeitadas. A confiança já permite uso em estudos mais detalhados.
Recurso Medido: representa o nível mais alto de confiança geológica. Aqui, não é necessária uma operação em andamento, mas sim dados de altíssima qualidade (descrição consistente, sondagens bem recuperadas, surveys precisos, estrutura bem compreendida) e densidade amostral compatível para demonstrar continuidade com mínima incerteza. O modelo deve ser coeso, detalhado e transparente o suficiente para suportar estimativas de atributos e tonelagem com alta confiabilidade.
Em síntese, um recurso mineral só pode ser declarado se houver razoável perspectiva de extração econômica. A partir daí, é o modelo geológico representativo, construído com dados bem posicionados, descrições de qualidade, contatos claros, domínios coerentes e incertezas documentadas, que sustenta a classificação como inferido, indicado ou medido. O mercado pode mudar, o preço pode variar, mas a geologia, quando bem modelada, permanece como a base sólida para qualquer tomada de decisão.
