
Ao longo da minha trajetória profissional, trabalhando com dados geológicos, geoquímicos, geotécnicos e operacionais, uma coisa ficou muito clara para mim: o problema raramente está no dado em si. O problema está quase sempre na forma como as pessoas lidam com o dado.
Existe um caminho técnico que deveria ser óbvio, mas que na prática é constantemente atropelado. Primeiro, os dados precisam existir.
Depois, precisam ser validados.
Validar significa saber de onde vieram, como foram coletados, como foram preparados, analisados, quais controles de qualidade foram aplicados, se há precisão, se há exatidão e se aqueles números podem, de fato, ser usados para alguma tomada de decisão.
Só depois disso é que começa, de verdade, o trabalho intelectual com os dados.
E é exatamente nesse ponto que, na minha opinião, muitos projetos derrapam.
Vejo com frequência profissionais pulando a etapa de validação ou tratando essa etapa como um checklist protocolar, quase burocrático.
E, logo em seguida, pulando também a etapa de olhar com calma para os dados, organizá-los, fazer estatística descritiva, construir gráficos, testar hipóteses simples, comparar populações, entender variabilidade. Ou seja, pulam o EDA.
Em vez disso, partem direto para o modelo.
O problema é que, muitas vezes, esse modelo já nasce com uma ideia pré-concebida.
Existe uma expectativa do que o dado “deveria” mostrar.
Existe uma narrativa pronta. E, a partir disso, o esforço passa a ser fazer o dado caber nessa narrativa, e não o contrário.
Quando isso acontece, o EDA deixa de ser um momento de leitura e passa a ser um momento de justificativa.
Gráficos são escolhidos porque “ficam melhores”. Escalas são ajustadas para suavizar variabilidade. Outliers são descartados rápido demais porque “atrapalham”. Populações diferentes são misturadas porque “estatisticamente dá para tratar”.
Esse é um caminho perigoso.
Para mim, o EDA é um dos momentos mais importantes de qualquer trabalho técnico justamente porque ele exige uma postura que nem sempre é confortável: a postura de escutar o dado sem tentar controlá-lo.
Depois que os dados foram validados — e isso inclui saber que eles têm qualidade suficiente para serem usados — o EDA é o momento de organização mental do problema. É quando eu paro e me pergunto: o que esse conjunto de dados realmente mostra? O que ele não mostra? Onde está a variabilidade? Ela é coerente com a geologia? Ela faz sentido com o processo? Ela é esperada ou é um alerta?
É também nesse momento que muitas surpresas aparecem. Dados que, à primeira vista, pareciam simples, mostram múltiplas populações. Litologias que pareciam homogêneas revelam comportamentos completamente distintos. Elementos que se esperava que fossem correlacionados simplesmente não são. E, às vezes, aquilo que parecia “erro” se revela a informação mais valiosa do conjunto.
O EDA, para mim, é um exercício de humildade técnica. Ele obriga o profissional a aceitar que o dado pode contrariar expectativas, modelos mentais e até interpretações anteriores. Ele exige que a gente suspenda, temporariamente, a vontade de concluir, para primeiro compreender.
E isso vale para qualquer tipo de dado e qualquer área da geologia.
Vale para dados geoquímicos de rocha, solo ou sedimento. Vale para dados geotécnicos. Vale para dados de sondagem, de mapeamento, de planta, de laboratório. Vale para exploração, mina, usina, meio ambiente. Vale antes de qualquer tipo de modelo: geológico, geoestatístico, geometalúrgico ou numérico.
O risco de não fazer EDA — ou de fazê-lo de forma superficial — é construir decisões sobre bases frágeis. Modelos podem parecer matematicamente corretos, mas estarem conceitualmente errados. Relatórios podem ficar bonitos, mas esconder incertezas importantes. Projetos podem avançar rápido demais sem entender seus próprios limites.
Por outro lado, quando o EDA é bem feito, ele não resolve todos os problemas, mas deixa muito claro quais problemas existem. Ele não entrega respostas prontas, mas orienta as perguntas certas. Ele não elimina incerteza, mas torna a incerteza explícita e, portanto, gerenciável.
Na minha prática, o EDA é o momento em que o dado deixa de ser apenas um número em uma planilha e passa a ser informação técnica. É quando o dado começa a dialogar com a geologia, com o processo, com o contexto real do projeto.
E talvez o ponto mais importante: o EDA só funciona quando há disposição genuína para ouvir o que os dados estão dizendo — mesmo quando isso contraria o que gostaríamos que eles dissessem.
